Fotografei as minhas histórias em uma Rolleiflex

The Rolleiflex Automat 35C
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A minha família está repleta de grandes contadores de histórias. Quando eu era criança e os adultos contavam as aventuras e desventuras dos nossos antepassados, naquela terra outrora selvagem, eu ia absorvendo as informações e as coisas a minha volta ganhavam vida, cores, sons e movimentos.

Eles me mostravam que as coisas não estavam ali por acaso, que pessoas sonharam, trabalharam e construíram. Aquela não era apenas uma estrada, era o fruto do trabalho de muitas pessoas. Ali pavimentados estavam também os sonhos, o suor e as lutas de tantas mulheres e homens.

Quando passava por ela, quase podia sentir as árvores sendo derrubadas, a seiva escorrendo, os pássaros fugindo assustados. Homens e máquinas aterrando, cavando, explodindo pedras e carregando materiais. Quase sentia o cheiro do combustível e ouvia o cantarolar e as lamúrias dos trabalhadores em meio ao som de máquinas e ferramentas vibrantes.

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Trabalhadores suspensos na Brooklyn Bridge 1914

A escola em que eu estudava se tornara repleta de fantasmas do passado. Meninos e meninas de todos os tempos passaram por ali e deixaram parte de suas infâncias impregnada nas paredes, nos pisos e no ar. Era uma escola feita de muitos sonhos e risos infantis.

Quando eu mencionava algum fato histórico recente que aprendera na escola, os adultos contavam como outrora receberam aquela notícia e como isso afetou suas vidas. E assim a história do país antes fria e distante ganhava contorno reais. Não era mais um acontecimento distante que alguém colocou no papel, tornara-se um fato que influenciou a vida das pessoas.

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Apesar de adorar ouvir as narrativas e tentar apreender a amplitude das coisas no tempo e no espaço, eu me sentia uma recém-chegada. Alguém que perdeu o melhor da festa. Tinha a sensação de que todas as coisas interessantes haviam acontecido antes de eu chegar. E que as pessoas estavam tentando me colocar a par dos acontecimentos.

E assim eu vivi por muito tempo, uma pessoa que não fez parte da própria historia, como se eu tivesse perdido a minha própria festa.

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A primeira vez que eu me senti uma convidada especial nessa festa, foi quando os meus filhos, já adolescentes, começaram a curtir as músicas dos anos oitenta. Eu contava para eles como aquelas músicas fizeram parte da minha juventude, falava da carreira e da vida dos artistas, dos discos de vinil e das fitas cassetes. Sobre os shows que assisti, os programas de televisão e apresentadores da época.

Em seguida, estudaram sobre o impeachment do presidente Collor. Ah! Eu senti que tinha participado da história de camarote. Relembrei os fatos que cercaram esse episódio, as notícias na mídia, a opinião dos profissionais de comunicação, dos amigos e conhecidos.

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Foi depois desse ocorrido que eu comecei a me sentir dona da minha própria trajetória. Observava com atenção as mudanças que ocorreram no mundo, nos costumes, na evolução da tecnologia, e toda essa transformação estava entranhada em mim.

Fiz curso de datilografia, usei máquina de escrever, fotografei e fui fotografada com uma câmera Rolleiflex. Assisti muitos filmes em aparelho de vídeo cassete. Acompanhei a guerra fria, a Perestroika, o final do regime militar no Brasil, o casamento de Lady Di, a queda do muro de Berlim. Vi Nelson Piquet e depois Airton Senna da Silva serem campeões mundiais. Vi a seleção brasileira de futebol levantar a taça do mundo três vezes.

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Eu não me sentia mais uma forasteira, eu agora tinha minha própria biografia, estava inserida nessa teia. Vi, vivi, senti, participei, lutei, criei e destruí. A história estava viva e corria nas minhas veias.

Talvez por isso eu recebi com alegria as primeiras linhas de expressão que se pronunciaram no meu rosto. Entendi que as minhas memórias precisava de um lugar para serem escritas. Recebi a prata nos cabelos como uma condecoração por ter combatido com honra e coragem as batalhas da vida. E exibia com orgulho as minhas conquistas.

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Mas as pessoas ao meu redor não pareciam satisfeitas, não compartilhavam comigo a alegria de ver a vida se expressar.

Um simpático jovem que trabalhava em um salão na vizinhança sugeriu que eu fizesse um corte e um tingimento nos meus cabelos e com isso eu pareceria 10 anos mais jovem. Que parte da minha vida aquele jovem queria apagar? Será que o tempo em que gestei os meus filhos? Quando ouvi suas primeiras palavras? Quantos livros eu teria que esquecer se perdesse esses 10 anos? Quantos momentos bons com meus amigos e familiares? Ele se mostrou um ladrão que queria roubar os meus melhores anos.

Outras pessoas também insistiam que eu deveria parecer, enquanto eu queria ser. Onde quase nada de fato é o que parece, autenticidade pode soar antinatural.

Penso que as pessoas temem encarar o fato de que ficamos velhos, porque veem no amadurecimento o crepúsculo dos tempos, o anúncio da chegada da noite, que finda os acontecimentos.

Eu recebi o amadurecimento como o alvorecer do dia, os primeiros raios de sol se refletiram prata nos meus cabelos. O dia mal amanheceu e eu estou apenas começando a viver. Toda experiência que acumulei até aqui foi apenas uma preparação, um ensaio para a minha vida de fato.

Se alguém pensa que o último ato se aproxima, não entendeu nada, eu ainda nem estreei.

Neide Fernandes Silveira

 

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