Excesso de informação e escassez de conhecimento: não caia nessa furada!

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A vida é muito curta para ser pequena. Responda rápido: De quem é a autoria dessa frase, que você já deve ter recebido, só hoje, umas oito vezes em grupos do WhatsApp? Se não souber, pergunte ao Google. Espere! Essa informação faz alguma diferença na sua vida? Se não fizer, não perca seu tempo. Mas também não saia por aí dizendo que a frase é de Mário Cortella (só porque essa foi a primeira opção apresentada pelo buscador), porque não é. Foi o próprio Cortella que me entregou a informação completa, equívoco e correção, neste encontro particular que tive a honra de ter com ele.

Obrigada se você acreditou em mim e não clicou no link, mas não deveria ser tão crédulo. A brincadeira é para chamar atenção para uma das armadilhas às quais devemos estar atentos na era digital: a falta de credibilidade das fontes. Além do “perigo externo”, precisamos evitar arapucas que nós mesmos criamos: consumir informações compulsivamente e sem critério e achar que tudo o que é necessário à formação de um “saber” está no ciberespaço.

 

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No conjunto, essas ciladas formam a trama sobre a qual se assenta o paradoxo da era digital: excesso de informação e escassez de conhecimento. A oferta quase infinita de informações e a velocidade com que elas nos chegam são incompatíveis com a nossa capacidade de processá-las. Se não abrirmos o olho podemos acabar nos esquecendo da lição destas duas máximas: 1- O apressado come cru e quente; 2- Quantidade não é sinônimo de qualidade.

 

Informação não é conhecimento

– O Obama renunciou! O dólar subiu! Putin mandou as tropas atacarem!

– E daí, o que isso significa?

– Olha, o Obama renunciou, o dólar subiu, Putin vai ocupar a Síria!

– E o que isso significa?

– Então! O Obama renunciou! O dólar subiu! Putin mandou as tropas atacarem!

 

O diálogo hipotético acima foi criado pelo filósofo Mário Sérgio Cortella (aquele que não é autor da frase lá do início do texto) para mostrar a diferença entre informação e conhecimento. Nesta edição do programa Sempre um Papo, Cortella, como em outras ocasiões, falou sobre o que faltava para o “pulo do gato”: o sujeito apropriar-se da informação. Lamentavelmente, aquele que anunciava com empolgação as “últimas notícias” simplesmente não sabia o que aqueles eventos poderiam acarretar, com que outros fatos se relacionavam, como poderiam mudar a sua própria vida e a de outras pessoas. Em suma, não sabia o que fazer com a informação de que dispunha.

 

Cortella inúmeras vezes (como nesta participação no programa Café Filosófico) relembra a seguinte lição: a informação é só a base para o conhecimento, apenas o ponto de partida. Ela é esquecível, enquanto o conhecimento é inesquecível; a informação é cumulativa, ao passo que o conhecimento é seletivo e deve ser entendido como “aquilo que vai servir para operar a (…) vida, fazê-la funcionar, o conhecimento como solução de problemas, (…) como maneira de existir de modo mais consciente, (…) menos alienado”.

 

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A pressa é inimiga do conhecimento

Suponhamos que, buscando orientações para fazer seu primeiro arroz, você tenha acesso à seguinte informação: “para fazer uma xícara de arroz, é preciso usar duas xícaras de água quente”. Em outro lugar, você lê: “depois de refogar o arroz, jogue água fria na panela, assim os grãos ficarão mais ‘soltinhos’”. Assistindo a um vídeo do YouTube, você observa a cor do alho sendo refogado e fica surpreso (veja só, é preciso dourar o alho!). No Instagram, a foto postada por um amigo desperta sua curiosidade: uma panela cheia de arroz com duas folhas de louro no meio! Passada a perplexidade, você se lembra de que a sua avó sempre falava que era bom colocar louro na comida porque ele ajuda na digestão e ainda perfuma o prato. Por fim, para tirar todas as dúvidas, você visitou o site de uma autoridade no assunto: Claude Troisgros.

 

Hum, isso vai dar caldo! Você acessou múltiplas fontes, ficou desconfiado da informação do sujeito que recomendou a água quente (fria não é melhor?), teve a curiosidade atiçada pela folha de louro do Instagram, refletiu, relacionou a informação com outro dado de que dispunha (o louro da sua avó) e, por fim, consultou um cara que indiscutivelmente tem credibilidade para dizer como se faz um bom arroz.

 

Mesmo assim, ao colocar a “mão na massa”, pode ser que você se esqueça de alguns detalhes, como abaixar o fogo depois da fervura. Nesse caso, quinze minutos depois, você vai provar, ansioso, seu arroz de estreia e, além de queimar a língua, constatará que se esqueceu do sal e que a chama alta fez a água evaporar rápido demais, comprometendo o cozimento. Lembra-se do ditado? Quente, cru e, no seu caso, ainda por cima sem sal (e olha que você estava indo bem…).

 

A parte boa da história é que você estará, nesse processo, transformando a informação em conhecimento. Ele, sim, dá frutos muito saborosos, mas exige tempo e dedicação (tanto maiores quanto maior for a complexidade das informações a serem processadas; a vida não se resume a fazer arroz).

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Dificuldade de expressão e limitação interpretativa: frutos podres da pressa e da superficialidade

 

No dizer do historiador Leandro Karnal, nós não estamos mais brilhantes ou mais produtivos do que há 30 anos, apenas incrivelmente mais ocupados com o mundo virtual”. É fato. A facilidade de acesso à informação não se traduziu na ampliação da nossa capacidade de formar ideias próprias, de articular o pensamento, de fazer descrições precisas, de interpretar os fatos, de perceber a realidade criticamente, de argumentar (e não apenas dizer o que comemos ontem ou que músicas tocaram na balada). Além de ocupados com inutilidades, muitos de nós estamos extraordinariamente mais superficiais. Não temos paciência para aprofundamentos.

 

Lemos, lemos, lemos e não entendemos nada. Ou entendemos algo diverso daquilo que está claramente expresso. Tudo bem, isso não é tão novo assim, nem tem relação exclusivamente com as novas tecnologias informacionais. Na crônica “O que se diz e o que se entende”, Cecília Meireles (1901-1964) já lamentava a discrepância entre o dito e o compreendido (e, aliás, criticava também, nas entrelinhas, a já então usual parceria entre a ignorância e a arrogância). Mas não deixa de impressionar que a comunicação seja tão precária com tantos meios sofisticados a propiciá-la.

 

Não entendemos o que lemos, tampouco refletimos sobre o que vamos falar ou escrever. Ouvimos o galo cantar, mas não sabemos onde. Mesmo assim, gostamos de dar pitacos sobre tudo – o desconhecimento escorrendo pela boca na forma de verborragias inúteis, citações descontextualizadas e discursos desconexos, feitos de orelhada. E, à falta de argumentos, muitas vezes usamos a agressividade, como vemos em tantas discussões pueris e inócuas entre pessoas com opiniões divergentes nas redes sociais (a propósito, o contrário disso – um banho de conhecimento, maturidade, civilidade e boa vontade – foi a conversa entre Leandro Karnal, historiador ateu, e Fábio de Melo, padre católico, que resultou no livro Crer ou não crer, recém-publicado pela editora Planeta do Brasil).

 

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Imagem do livro Crer ou não Crer – Editora Planeta

 

Particularmente, o que mais me incomoda em tudo isso é que estamos perdendo a capacidade de perceber as sutilezas, as insinuações, as metáforas. Ficamos excessivamente literais. É preciso ser muito explícito, é preciso um desenho (ou melhor, um emoticon) para explicar um texto ou um contexto (ou para que o entendamos). Estamos afobados.

 

Nem panaceia, nem Caixa de Pandora: o ciberespaço em seu devido lugar

Quem nasceu antes da década de 1980 sabe o sufoco que era fazer pesquisas usando como fonte as enciclopédias Conhecer (Barsa, Mirador…)! Sabe, portanto, mais do que os jovens (que nunca conheceram outra realidade) ser grato às mãos e aos cérebros que inventaram as novas e fascinantes tecnologias de informação. O problema não é a web, nem o mundo de informações a que ela dá acesso; o problema somos nós mesmos, que ainda estamos aprendendo a comer melado sem nos lambuzar!

 

O ciberespaço tem bugigangas e preciosidades. Antes de entrarmos nele, a primeira coisa que devemos ter em mente é o que procuramos naquele momento (para onde queremos ir): diversão, informações rápidas mas úteis (por exemplo, quanto de sal usar para uma xícara de arroz!), leituras inspiradoras, textos motivacionais, estudos aprofundados e por aí vai.

 

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Em qualquer caso, precisamos ter critério para usar a internet como ferramenta de enriquecimento (e não como desperdiçador de tempo e fonte de ansiedade e frustração):

  • Primeiro, para não ficarmos escravos das novas “obrigações sociais”: por exemplo, curtir, “amar” ou dizer “uau!” com urgência a cada foto ou a cada mensagem de “boa primavera” postada por um colega (não sei você, mas eu já recebi algumas repreensões por não ter curtido fotos que eu nem tinha visto em redes sociais).

 

  • Segundo, para não nos esquecermos da “vida real”. Não dá para substituir a leitura de livros por uma passada de olhos em resumos disponibilizados na web. Não dá pra substituir o cinema por sinopses ou críticas de filmes em sites (assim como não dá pra substituir abraços e encontros por emojis e conversas por Skype, nem uma viagem aos Lençóis Maranhenses por um tour virtual). O recurso a suportes diferentes do digital aumenta muito o proveito que podemos tirar até mesmo das informações obtidas em meios virtuais (nem tudo o que é importante está no espaço cibernético).

 

  • Terceiro, para não confundirmos quantidade com qualidade. Para garantir o sucesso da navegação, é preciso buscar as informações relevantes, pesquisar aqueles que são referências no assunto de interesse, recorrer a sites e portais confiáveis e ir direto às fontes (é comum ver pessoas citando obras a que, visivelmente, nunca tiveram acesso; o resultado, você já sabe…). Também é importante, em muitos casos, ir além dos primeiros resultados do Google para checar a veracidade de algumas informações, como a autoria da frase lá do início do texto.

 

Pois é, quase que ia me esquecendo de dizer. A frase foi cunhada por Benjamin Disraeli, político britânico falecido em 1881. Ele também disse que “o segredo do sucesso é a constância do propósito”, o que vem bem a calhar para a nossa reflexão sobre esses tempos de impaciência e superficialidade. Quer saber mais sobre ele? Pergunte ao Google. Espere! Tome cuidado para não entrar no modo obsessivo-automático de consumo de informações.

P.S.: Quando você estiver lendo este texto, talvez a primeira página apresentada pelo Google em resposta à sua pesquisa sobre a autoria da frase de abertura seja a que traz a informação correta. Sabe como é, os algoritmos estão sempre sendo aperfeiçoados, e páginas surgem e desaparecem a cada instante.)

 

Autora: Andréia Mello

 

Agora responda sem pressa: Você sabe tirar proveito da web ou se perde nos caminhos do mundo virtual? Deixe sua resposta aí embaixo, nos comentários. Aproveite e conte-nos o que achou do texto! Se gostou, compartilhe nas suas redes!

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