Será que ainda dá tempo de começar, terminar, desistir?

Imagem: Sfio Cracho
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Será que ainda dá tempo? Qual é o momento certo para começar, terminar, tentar, aprender, desistir?
 

Comecei várias coisas bem tarde na vida. Sexo aos 20, viagem internacional aos 30, filho aos 40 e rúcula aos quase 50! Isso não significa que não tenham sido boas experiências. Numa sociedade cujo o culto à juventude é a ordem do dia, esses supostos atrasos podem ser vendidos como pequenos (ou grandes!) fracassos. Resta a cada um de nós comprar essa ideia ou não.

José Saramago, único Prêmio Nobel de Literatura em língua portuguesa, tornou-se internacionalmente conhecido somente aos 60 anos, com a publicação de Memorial do Convento. Ele já tinha escrito poesia, feito muita tradução e até mesmo publicado outros romances mas, dentro de alguns parâmetros, ele certamente chegou ao estrelato, digamos assim, tardiamente. Quando perguntado sobre isso, ele teria dito que se tivesse feito tudo na juventude não teria mais nada a fazer depois. E como ele fez! Hoje sabemos que continuou produzindo muito até o fim da vida, aos 87 e, pelo menos na minha modesta opinião, coisa muito boa.

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José Saramago

"Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo."
 José Saramago
 

Eu me mudei do Brasil para os Estados Unidos poucos meses antes de completar 34 anos. Naquela época, meu inglês foi classificado como intermediário e sei que muita gente me olhava com indisfarçável ceticismo quando sabia da minha idade, pensando que talvez fosse muito tarde para mudar de país e mais ainda para aprender uma nova língua. Não me lembro de isso ter me preocupado muito à época, mas sei que aprendi inglês, fiz mestrado, doutorado e trabalhei em grandes universidades americanas. Fiz amigos, palestras em inglês, viajei, mudei de cidade algumas vezes e sobrevivi.

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Essa questão da idade, no entanto, voltou ao meu radar recentemente quando, depois de 17 anos de Estados Unidos, lancei voo novamente, desta vez para a Dinamarca. As circunstâncias dessa nova mudança são bastante distintas da primeira e, claro, isso pesa um bocado. Mas também servem como nova oportunidade para pensar se desta vez, realmente, eu não estaria infringindo um princípio sério demais para ser ignorado. Não seria este o momento de finalmente lançar a âncora num porto seguro, fincar raízes e todos esses outros lugares comuns que determinam que, depois de certa idade, é preciso parar…

Image: Vivian Maier

Image: Vivian Maier

Ainda é cedo (com o perdão do trocadilho) para avaliar. Tenho tentado manter tudo em perspectiva, embora admita que meu intermediário de inglês daquele tempo pareça um PhD linguístico quando comparado ao meu zero de dinamarquês, mesmo depois de meses vivendo aqui. O fato de ser mais velha também me tornou um pouco mais cínica e com paciência reduzida para o passo a passo inevitável quando a gente tem de se adaptar a uma nova cultura e a um estilo de vida diferente. Outro fator complicador nessa nova página da minha história pessoal é que, agora, além do meu amado marido companheiro, tenho um filho, uma responsabilidade que influência todas as decisões.

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Por muito tempo me impunha um certo calendário mental, tentando estabelecer prazos para determinadas realizações. Vício de jornalista, talvez, que vive em função do fechamento. Mas o fato é que é preciso ser realista quando se busca estabelecer esse tipo de organização. É fundamental não tentar comparar sua rota, sua história com a de outra pessoa. Esqueça que Noel Rosa morreu aos 26 anos deixando um legado invejável, que Mozart foi criança prodígio e quando embarcou dessa para uma melhor tinha somente 35 e já tinha se tornado um deus da música clássica mundial. Também não precisa tomar como exemplo aquele primo folgadão que ainda mora com a mãe aos 45 anos e reclama quando ela não passa as camisas dele do jeito que ele gosta.

o tempo de cada coisa

Viva no seu ritmo. Permita-se descobrir não o pote de ouro no fim do arco-íris mas o que se esconde nas entrelinhas do tempo. Enxergue de fato o que vê. Isso não quer dizer adiar pra sempre aquela viagem, deixar pra falar o que está sentindo em busca do melhor momento que pode nunca pintar, mas simplesmente entender que, algumas vezes, a vida é mais complexa que o google calendar.

To be continued…

Texto escrito e gentilmente concedido por:

Selma Vital  (Editora do site Horizonte Sustentável)

Publicado originalmente no Medium

Título original: O tempo de cada coisa

 

 

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