Reivindicar a autoestima leva tempo, esforço e compromisso

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Se eu tivesse que escolher uma definição para a minha existência, eu escolheria trabalho. Desde criança trabalhei muito. Cresci numa família grande, cujos membros compartilhavam o mesmo bairro. Na adolescência, cozinhava e cuidava dos meus irmãos e primos mais novos. Fui atendente de loja, enquanto cursava Direito à noite. Depois de me formar, acumulei meses, anos e décadas de exercício profissional na Defensoria Pública.

Conheci o Afonso quando tinha 23 anos, nos casamos e logo vieram as crianças. Aí o trabalho atingiu níveis estratosféricos. Assumia as causas com afinco e ainda preparava o jantar e ajudava os meninos na lição de casa, mesmo cansada me sentia forte e poderosa. O momento da aposentadoria chegou. Sem pensar duas vezes, tratei de me engajar em trabalhos voluntários.

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Ao longo dos anos, quase sempre disfarçada de admiração, eu enxergava uma sombra no rosto dos conhecidos: por que ela trabalha tanto? Servir aos outros sempre fez parte da minha essência. Abrir mão de mim mesma e dos meus pequenos prazeres para que uma batalha fosse vencida era meu prêmio máximo.

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Aos 55 anos comecei a sentir uma insatisfação que não sabia de onde vinha. Emagreci sem que algum exame me colocasse diante de uma explicação razoável. Nas noites mal dormidas, eu lia, na esperança de que a literatura me resgatasse a paz. Então, eu dormia e seguia com a vida. Mas em várias ocasiões, eu ouvia aquela voz que se recusava a calar: o que estou fazendo comigo mesma? Cada vez mais religiosa, eu parecia uma mochileira que não via a hora de tirar o peso dos ombros. Minha sensação de mal-estar comigo mesma se potencializava pois sentia que estava reclamando de barriga cheia. Comparado aos gargalos crônicos que vitimavam meus clientes na Defensoria, meu drama não era nada. Tinha um casamento feliz, filhos encantadores e uma carreira com a qual me sentia completa. Que angústia era aquela, então?

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Sem planejar muito, passei a me presentear com pequenos mimos: perfumes importados, acessórios caros, roupa de cama de linho egípcio e outros tantos agrados que até pouco tempo atrás não me pareciam necessários. Deixei de freqüentar o salão da Diva, a cabeleireira que me atendia há anos. Uma amiga me contou sobre um SPA onde ela fazia tratamento estético. Marquei uma visitinha sem compromisso, apenas para conhecer. Logo virei cliente.

Imaginei que esses hábitos novos me manteriam com a autoestima elevada. No entanto, continuava me sentindo mal. Estava bem vestida, fisicamente confortável e transportando minhas aquisições mais recentes. Mas, por dentro mal. Um dos pensamentos recorrentes era sobre aquele sonho abandonado de ser juíza. Certamente minha vida seria mais confortável como a dos juízes que eu encontrava nos tribunais. Enfim, sensação de incompletude e de estagnação.

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Fotografia – James Maher

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Um dia, ao passar pela última fileira de cadeiras do tribunal, vi um cartão de visita caído próximo dele. Peguei, mas como não havia uma lixeira por perto, coloquei o cartão, que era de um psicoterapeuta, no bolso do meu casaco. Várias vezes eu segurei o telefone planejando marcar uma consulta e antes de digitar qualquer tecla, pensava: “puxa, já estou atrasada pra sair; se ligar, eu vou chegar atrasada”. É incrível como a mente inventa justificativas para que o olhar para dentro de si não se realize. Finalmente, criei coragem.

Seria leviandade afirmar que é fácil. Não é. Foi e ainda é uma questão de me comprometer comigo mesma. Sim, o compromisso de ir à sessão semanal e de falar sobre mim: minhas vitórias, frustrações, expectativas não correspondidas e mágoas não resolvidas, resultando em uma autoestima frágil e questionável. Depois da primeira sessão, eu desmarquei algumas. Hoje percebo que estava fugindo e não era do terapeuta. Era de mim mesma.

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Precisei e ainda preciso me esforçar para acalentar aquela menina oprimida e confortar a jovem injustiçada que ainda moram dentro de mim. Preciso de esforço para perdoá-las por coisas que elas imaginam que aconteceram. Me esforço para aceitar que a mulher, mãe e profissional que me tornei tem sim o direito em receber recompensas,  mas essas recompensas não necessariamente vêem em embalagens com código de barras.

Ainda estou no caminho. Conhecer e se reconhecer leva tempo. Mas não vou desistir de buscar meu equilíbrio e auto-estima. Há dias que eu acordo sufocada pela indignação. O tempo terapêutico ainda está na fase de engatinhar, mas ele me ensinou a habilidade de dizer não quando meu corpo e meu espírito assim o pedem. Reconheço as minhas potencialidades, mas estou aprendendo a respeitar os meus limites, e as vezes deixar de trabalhar por alguém, pode resultar em trabalhar pra mim mesma.

Milena Cruz, 55 anos 

 

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