Como o medo envenena a meia-idade

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Não estamos preparados para envelhecer, nem sequer para viver.

Hoje realizei um desejo que venho guardando há 30 anos: fazer uma tatuagem. Quanto completei 15 anos, meu tio Joel “Big Joe” me presenteou com uma tatuagem. Porém, recusei o presente e ligando os pontos hoje eu vejo que a decisão foi acertada. 30 anos depois, aqui estou eu tatuado.

E o que cacete tem isso a ver com envelhecer?

Quando era mais jovem eu temia o arrependimento. Tinha medo e pautei minha vida sobre o medo: medo de morrer, medo de não ser aceito, medo de ser feliz, medo de ser infeliz, medo da sombra, medo de viver. Isto é irracionalidade. Hoje, depois de entrar na agulha, percebi, como num estalo, o quanto vivia com medo e o quanto o medo orientou minhas decisões.

E tenho certeza de que não sou o único que viveu com medo até agora, motivo pelo qual compartilho estes pensamentos com você, caro leitor.

Ao atingir a meia-idade, percebi que passei minha vida toda com medo e, por conta disso, despreparado para viver. Infelizmente, a vida não vem com manual de instruções e você precisa aprender na base da porrada e da dor. O medo de viver me despreparou para envelhecer e isso acontece com todo mundo.

O fato é que a vida é curta demais para você inventar algum tipo de desculpa para não fazer o que gostaria de fazer. Eu aprendi a andar de patins aos 35 anos, o que me rendeu muitas críticas, a grande maioria preconceituosa. Agora, aos 45, fiz minha primeira tatuagem e gostei tanto que já estou me programando para fazer pelo menos mais umas quatro.

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Sim, meu corpo não é o mesmo de 30 anos atrás. Não sou mais tão jovem. Os cabelos que param na cabeça estão se tornando grisalhos. Os que não param, abrem uma bela calvície. E daí? Estou envelhecendo e depois vou morrer, como todo mundo. Por que isso é difícil de entender?

Prefiro ser feliz do que estar certo. O problema é que nunca estou feliz.
Slartibartfast em O Guia do Mochileiro das Galáxias.

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Ken Coleman’s ‘Slartibartfast’ is Hunt’s choice for June

Vivi minha vida com medo, e este medo me tirou a noção de que a vida vai acabar para mim um dia. Isso vira tabu. Não falamos da morte. Vivemos com medo. Um medo irracional, visceral, descontrolado. Não fazemos um monte de coisas que gostaríamos por que vivemos com medo: temos medo da opinião do vizinho, do que amigos vão falar, de arrepender-se, de não arrepender-se. E assim, deixamos de lado nossa felicidade que, assim como nossa vida, é transitória.

Arrumamos desculpas para justificar nossos medos. Dizemos: estou muito velho para isso. Ou algo do tipo: vou me arrepender por fazer isso.

O medo é o que nos mantém vivos. Porém, ao torná-lo capitão da nossa vida, deixamos de lado o controle racional e passamos a viver em profunda irracionalidade. Abandonamos a felicidade e o amor. O amor pelo próximo, acredite, exige que você dispa-se do medo.

Deixamos de viver para alimentar nossos medos. E com isso deixamos de aprender, de ensinar, de sentir e, efetivamente, de viver.

Depois que nos despimos do medo coisas maravilhosas acontecem na nossa vida. Passamos a ver o mundo mais colorido, mais encantador e passamos a contemplar mais os nossos arredores. Passamos a ouvir a opinião do outro mas, não nos importarmos com ela. E daí que você acha que estou velho demais para fazer o que eu quero?

Certa vez eu disse em uma dinâmica de grupo que as coisas mais poderosas da vida são: o não e o foda-se. Porém, é preciso dizer não e foda-se para as coisas certas. Abraçar o medo é negar a própria vida. Dizer foda-se para absolutamente tudo é abraçar uma vida sem responsabilidade. Dizer não para tudo é negar, inclusive, a si mesmo.

Andar nu num quarto com espelhos é o primeiro passo para despertar a sua mente deste sono pesado auto-inflingido pelo despreparo que nossa cultura nos oferece para enfrentar a vida.

Artigo escrito e gentilmente concedido por: Ronaldo Faria Lima

Publicado originalmente no: Médium 

Título original: Não estamos preparados para envelhecer.

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