32 lições que os seguidores da juventude eterna desconhecem

Béla Lugosi em Drácula
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Você encontra um conhecido de faculdade na rua, ele olha pra você de cima a baixo, projeta os lábios para a frente, bota a mão no queixo e diz: “Nossa, você está inteiraça para a sua idade, hem!” Para você, isso é um elogio, uma afronta ou uma irrelevância? Ou depende?

Seja como for, é certo que o sujeito estava com a melhor das intenções. Só que, como todo mundo sabe, de bem-intencionados o inferno está cheio.

Mas, afinal, o que é estar inteiro? É não estar quebrado, não ter nenhuma peça faltando? Ou já conhecer e saber usar os instrumentos para reconstruir-se e reinventar-se depois de cortes, quedas, porradas, fissuras e outras avarias?

 

As lições de inteireza do rio

É certo que, depois dos 40 anos, você terá inevitavelmente perdido uma série de coisas (além de colágeno e massa muscular): algumas batalhas, diversas esperanças, um ou outro amigo ou familiar muito querido, a energia inesgotável, duas ou três grandes oportunidades de trabalho, passeios imperdíveis, amores que eram pra ser eternos e por aí vai.

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Convenhamos que não é fácil estar inteiro depois de passar sob tantas pontes. Mas, a menos que seque, o rio vai sempre em frente. O segredo é saber desviar-se das pedras, abrigar cobras e jacarés, ser nascedouro de peixes, adaptar-se às mudanças de clima e de relevo e estar pronto para as surpresas depois das curvas. Tudo isso o rio enfrenta com seus recursos e seu dom fluvial. E segue pleno, na vazante e na enchente.

Traduzidas livremente ao “humanês”, as lições do rio são: resiliência, determinação, flexibilidade para contornar obstáculos, criatividade, prontidão para lidar com mudanças de condições, abertura a novidades. Pronto. Estão aí os pilares da inteireza, principal conquista da vida bem vivida.

 

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Inteireza: troféu ou prêmio de consolação? 

Dependendo do seu temperamento, você vai considerar as conquistas da maturidade um troféu ou um prêmio de consolação.

Ninguém é louco de dizer que não é bom, que não é bom demais, que não é um espetáculo! ser jovem, com tantas despreocupações e tanto viço. Se houvesse essa opção, eu escolheria ficar espertinha como sou agora com o corpo e o rosto que tinha aos 20 anos. O problema é que isso é impossível.

Os seguidores da juventude eterna, vendida às claras ou veladamente em lojas, clínicas, novelas e mídias sociais, estão fadados à frustração, porque perseguem uma miragem. É legal manter a jovialidade também por fora, sem forçação de barra (aliás, viva a tecnologia, viva o laser, viva o ácido hialurônico, vivam os bisturis usados com sabedoria!). O que não é saudável é adquirir compulsivamente modelitos de peito, de bunda ou de rosto para acatar, sem reflexão, imposições tácitas e cruéis. Muito melhor que isso seria um corte preciso – ou um nocaute – nos preconceitos que limitam o oceano de possibilidades à disposição de quem já passou dos 40, 50, 60 ou 70 anos!

 

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Viver bem: questão de sagacidade

É fato que a juventude passa, irremediavelmente, e tão rápido que às vezes você nem percebe o fade out que indica o seu encerramento. Quando se dá conta, tcharã, o cenário já mudou. E isso não é nenhuma tragédia, a menos que você teime em sentar-se numa cadeira ou deitar-se numa cama que já foi tirada do set.

A questão, portanto, é ter sagacidade para acompanhar as mudanças e aproveitar as “deixas” que a vida oferece aos montes. E se, por acaso, você errar a fala ou der algum “branco”, nada de drama. O senso de humor, amigo de todas as horas, está aí para isso mesmo. Ele deve ser usado sem moderação.

 

De que ângulo você enxerga a maturidade?

Qual a graça e a vantagem de envelhecer? Depende do seu ponto de vista. Não me lembro bem, mas creio que, aos 20 anos, eu achava que não tinha graça nenhuma, e as vantagens, talvez, fossem o charme dos conhecimentos adquiridos e a conquista de certa estabilidade financeira.

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Não sei se estou com a visão mais aguçada ou mais distorcida das coisas, mas o fato é que, quando contraponho ganhos e perdas de cada fase, acho que agora saio ganhando. Não sou Poliana nem nada, sei que a maturidade traz algumas inconveniências, mas aprendi que é muito bom ver as coisas pelo lado mais interessante. E acho que isso é saber viver – mesmo percebendo que a vida não é um mar de rosas e que o mar nem sempre está pra peixe.

 

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De que ângulo você enxerga a maturidade?

 

Aprendizado de inteireza

No fim das contas, o que realmente faz a diferença é aprender com as experiências, sempre. Os tropeços e tombos das crianças quando começam a andar ilustram bem essa realidade. Por falar nelas, já reparou que toda criança tem, pelo menos, duas manias: mostrar pros amigos os brinquedos que ganhou de aniversário e exibir para todo mundo suas conquistas cognitivas e motoras (“olha só o que eu já sei fazer!”, “sabia que a formiga tem seis patas?”). Essa dos brinquedos eu não tenho mais não, mas, acredite se quiser, continuo adorando alardear minhas descobertas, mesmo depois de um bocado de aniversários.

Por isso é que resolvi mostrar para você meu aprendizado de inteireza na forma de uma lista numerada, posso? Cortei bastante coisa pra não encher o seu saco (que já está cheio de bem-intencionados como aquele seu colega). Do que sobrou, muito pode parecer bobagem ou obviedade, mas pra mim cada item tem a importância de um achado científico.

Sentindo na pele ou vendo a experiência dos outros, olha só o que aprendi:

1- que a inércia é a mãe de todos os arrependimentos;

2- a reconhecer, nas situações e nas pessoas, padrões que se repetem (logo, a antever as “furadas” e cair fora do que me faz mal antes do estrago feito);

3- que qualquer pessoa, de qualquer idade, é inevitavelmente ridícula em um momento ou outro (e que, portanto, ter senso de humor, além de tornar tudo mais gostoso, é questão de sobrevivência);

4- que a autenticidade é o maior trunfo de uma pessoa;

5- a conhecer muito bem e a explorar aquilo que me torna única (meus dons pessoais – dom de ouvir, dom do cafuné e dom de desanuviar, – minhas aptidões profissionais);

6- que o melhor a fazer (pra ser feliz, pra ter sucesso, pra ser livre) é assumir, tirar proveito e às vezes até radicalizar as peculiaridades ou idiossincrasias;

7- que ter admiração é requisito para ter tesão, mas que não se pode confundir uma coisa com a outra;

8- a não precisar marcar posição em tudo e a ter mais tato para dizer verdades (logo, a evitar atritos desnecessários);

 

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9- a dar às coisas o seu devido tamanho e a não sofrer por bobagem (por exemplo, um copo d’água que cai no chão é só um contratempo; já a perda de um emprego pode ser um drama. Parece óbvio, mas lembra que, uns anos atrás, você achava que ia moooorreeer porque não tinha um sapato verde-água para a festa da sua prima?);

10- a descartar ou reciclar com mais frequência os quilos e quilos de lixo emocional que eu mesma crio ou que os outros lançam em mim;

11- que é melhor aprender no amor do que na dor, mas que às vezes a dor é inevitável e que, nesse caso, o melhor a fazer é aprender logo com ela, antes que ela se apegue a você ou você se vicie nela;

12- a estabelecer na vida pessoal relações de parceria, não de subserviência ou dependência, e a não fazer concessões abusivas;

13- que não se força ninguém a mudar;

14- que, além do senso de humor, a capacidade de perdoar, de amar e de ser grata são a base da saúde mental;

15- que a vida nem sempre é justa e que não dá pra sofrer excessivamente com isso, senão se sofre duplamente: pela injustiça em si e por achar injusto que as coisas sejam assim (mais uma vez, é o senso de humor que ajuda a digerir o incompreensível);

16- a não evitar conversas nem discussões desagradáveis, mas imprescindíveis (elas removem montanhas e movem meu mundo);

 

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17- a estabelecer prioridades;

18- a tirar o foco das imperfeições (minhas e dos outros);

19- a fugir do negativismo, do recalque e da amargura como o diabo da cruz;

20- a recusar estereótipos;

21- que as pessoas são multifacetadas e sempre podem surpreender (positiva ou negativamente);

22- a apreciar tanto a solidão quanto as interações;

23- a não me torturar só para corresponder a expectativas (muito menos para mostrar às pessoas como sou legal);

24- a parar de responsabilizar os outros pelas minhas mazelas;

25- que ninguém pode ser mãe do marido e que, se tentar fazer isso, não será nem mãe dos filhos nem mulher do marido;

26- a confiar no meu taco e na minha intuição;

 

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27- a dizer que as uvas estão verdes quando não consigo alcançá-las, na maior cara de pau (porque sei que existem frutas gostosas, nutritivas, no ponto e muito mais à mão);

28- a ser mais tolerante com quem lança “pérolas” como esta: “Você já achou a outra metade da laranja?” (que brega, que feio, que fora de propósito!), abrindo mão de dizer que não sou uma laranja, que não sou uma metade e que não perdi nada;

29- que nem todo mundo fica sábio com a idade (e que há pessoas acima dos 70 insuportavelmente imaturas);

30- a ter os olhos e o coração escancarados para as novidades;

31- que o que é bom não nasce feito;

32- a assoviar chupando cana (isso, por acaso, aprendi depois de ter filhos, que, por sinal, ensinam a resiliência como ninguém).

 

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Que tal? Duvido que você tenha uma lista como a minha!

Claro, o aprendizado é sempre sob medida – nas dimensões das especificidades e da vivência de cada um. Mas fiquei curiosa pra conhecer a sua lista. Outra coisa que não me sai da cabeça: o que você acharia da avaliação bem-intencionada do seu colega de graduação e como responderia a ele?

A minha reação, por fora, seria agradecer-lhe e dizer algum lugar-comum do tipo: “pois é, tô correndo atrás…, a gente tenta” ou qualquer outra insignificância. Por dentro eu ia rir, mais até do meu cinismo e da mão dele no queixo que do comentário em si. Se bobeasse, dependendo do dia, eu ia dar o troco, dizendo: “Hum, obrigada, você também está enxutérrimo!” E ia acabar tudo bem. Mas se ele retribuísse dizendo que eu era uma lady, eu não responderia nem pelos meus atos, nem pela minha gargalhada.

Autora: Andréia Mello da Silveira

 

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